Editorial+ | Origh Brasil
18 de setembro de 2026
- O Nordeste no centro da estratégia
- Recife como palco político
- Segurança pública volta ao centro do discurso
- O embate com o STF
- A eleição entra na fase da consolidação
- O mapa das pesquisas
- O primeiro turno ainda é outra disputa
- A força das redes sociais
- O papel de Alfredo Gaspar
- A economia como argumento eleitoral
- Uma eleição marcada pela polarização
- O Nordeste como campo de disputa
- A reta final
- O que está em jogo
A campanha presidencial entrou em uma das fases mais decisivas do calendário eleitoral brasileiro. A pouco mais de duas semanas do primeiro turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) intensificou sua presença no Nordeste e passou a combinar grandes atos públicos, discurso de segurança, críticas ao governo federal, questionamentos sobre o Judiciário e uma estratégia de aproximação regional construída também em torno da escolha do alagoano Alfredo Gaspar para a candidatura a vice-presidente.
A movimentação ganhou dimensão política em Recife, onde, na quarta-feira (16), a campanha reuniu apoiadores no Marco Zero e no Cais da Alfândega. O ato foi apresentado pela campanha como uma demonstração de força regional e ocorreu depois de uma agenda em Juazeiro do Norte, no Ceará.
O cenário descrito pela própria campanha é de busca por expansão territorial e consolidação de apoio em uma região que representa parcela expressiva do eleitorado brasileiro.
Flávio Bolsonaro, durante o ato em Pernambuco, afirmou ter percebido entre os participantes uma combinação de saudade do ex-presidente Jair Bolsonaro e desejo de mudança. Segundo o candidato, o sentimento estaria relacionado principalmente às dificuldades econômicas e ao aumento do endividamento das famílias.
“Antigamente se parcelava um fogão ou uma geladeira e hoje se parcela comida”, afirmou Flávio, ao criticar a situação econômica do país e responsabilizar o governo federal pelo aumento do endividamento.
A declaração integra uma das principais linhas narrativas utilizadas pela campanha nesta etapa: apresentar a eleição como uma escolha entre a continuidade do atual governo e uma mudança de direção política.
O Nordeste no centro da estratégia
A presença de Flávio Bolsonaro em Pernambuco não pode ser analisada apenas como mais um compromisso de campanha.
O Nordeste possui peso político e eleitoral relevante e, historicamente, tornou-se um dos principais territórios de disputa nas eleições presidenciais brasileiras. A estratégia da candidatura do PL é ampliar sua presença na região e evitar que o debate eleitoral fique concentrado nos tradicionais redutos políticos de cada campo.
Nesse contexto, Alfredo Gaspar assume uma função estratégica.
Alagoano, candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro, Gaspar passou a intensificar uma agenda própria pelo Nordeste, com previsão de passagem pelos nove estados da região.
A campanha apresenta essa movimentação como uma tentativa de transformar a candidatura a vice em instrumento permanente de diálogo regional.
Em declaração divulgada pela campanha, Gaspar afirmou que a escolha de um nordestino para a vice-presidência representaria a intenção de colocar o Nordeste no centro das decisões nacionais.
A estratégia tem uma dimensão simbólica evidente: em vez de tratar o Nordeste apenas como território eleitoral, a campanha procura associá-lo diretamente à composição da chapa presidencial.
Recife como palco político
A caminhada entre o Marco Zero e o Cais da Alfândega serviu como uma das imagens mais fortes da passagem de Flávio por Pernambuco.
O verde e amarelo utilizado pelos apoiadores, a concentração de público e a presença de lideranças do PL foram incorporados pela campanha como elementos de demonstração pública de mobilização.
Ao lado de Flávio esteve Mendonça Filho, candidato do PL ao Senado por Pernambuco.
O discurso do candidato ao Senado concentrou-se principalmente na segurança pública.
Mendonça Filho afirmou que o cidadão trabalhador não deveria conviver com a sensação de insegurança e defendeu endurecimento das penas, maior rigor na aplicação da legislação e cumprimento integral das penas em crimes graves, mencionando especificamente feminicídio e crimes hediondos.
Essa agenda dialoga diretamente com uma das principais bandeiras do discurso de Flávio Bolsonaro: segurança pública.
A campanha vem apresentando o combate à criminalidade e o endurecimento da legislação penal como componentes centrais de seu programa político.
No Recife, esse discurso ganhou dimensão eleitoral ao ser apresentado em meio a uma mobilização que procurou conectar segurança, economia e mudança de governo.
Segurança pública volta ao centro do discurso
A questão da segurança tem sido uma das áreas mais recorrentes na comunicação eleitoral de Flávio Bolsonaro.
Em seus pronunciamentos recentes, o candidato tem defendido medidas mais rígidas contra criminosos e facções, além de criticar políticas que, segundo sua campanha, seriam excessivamente tolerantes com a criminalidade.
Durante a agenda no Nordeste, também foram divulgadas propostas relacionadas à redução da maioridade penal, ampliação do sistema penitenciário e classificação de organizações criminosas como terroristas.
A campanha também vem utilizando uma retórica de confronto contra organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho.
Essas propostas colocam a segurança pública no centro de uma disputa maior sobre o papel do Estado, a política penitenciária, o sistema de Justiça e os limites da legislação penal.
Não se trata apenas de uma questão eleitoral. Trata-se de um dos temas que mais mobilizam diferentes setores da sociedade e que, por isso, tende a ocupar espaço significativo na reta final da campanha.
O embate com o STF
Outro eixo importante da campanha é a relação entre o Executivo, o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.
Flávio Bolsonaro tem elevado o tom das críticas ao Judiciário e, em declarações recentes, afirmou que “o Judiciário não é Alexandre de Moraes” e que “o STF não é Flávio Dino”.
A mensagem busca diferenciar a instituição de seus integrantes e, simultaneamente, manter no centro do debate eleitoral as críticas da direita a decisões e atuações de ministros do Supremo.
O tema ganhou ainda mais relevância diante da crise institucional que envolve o STF e dos recentes debates públicos sobre impedimentos, julgamentos e limites de atuação dos ministros.
Para a campanha de Flávio, a questão judicial tornou-se parte importante da narrativa de mudança institucional.
Para seus adversários, entretanto, a centralidade desse tema pode ser interpretada como uma tentativa de transformar conflitos institucionais em combustível eleitoral.
O fato objetivo é que Judiciário, Congresso e Executivo passaram a ocupar um espaço extraordinariamente importante no debate presidencial de 2026.
A eleição entra na fase da consolidação
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, o calendário eleitoral entra em uma etapa na qual cada agenda passa a ter valor estratégico.
A campanha deixa progressivamente o período de apresentação dos candidatos e entra no momento de consolidação de bases, busca por eleitores indecisos e tentativa de ampliar a transferência de votos entre diferentes grupos políticos.
No caso de Flávio Bolsonaro, a estratégia parece combinar três movimentos:
1. Consolidar o eleitorado identificado com a direita;
2. Ampliar a presença territorial no Nordeste;
3. Transformar temas como economia, segurança e relação com o Judiciário em argumentos para atrair eleitores que ainda não definiram seu voto.
O terceiro ponto é particularmente importante porque uma eleição nacional não é vencida apenas pela mobilização de uma base política.
A disputa presidencial exige capacidade de ultrapassar fronteiras eleitorais, regionais e ideológicas.
O mapa das pesquisas
As pesquisas divulgadas nesta semana mostram um cenário bastante competitivo nas simulações de segundo turno entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Na AtlasIntel divulgada em 17 de setembro, Flávio aparece numericamente com 47,2% contra 46,8% de Lula. A margem de erro é de 1 ponto percentual, o que caracteriza empate técnico. O levantamento ouviu 5.018 eleitores entre 11 e 16 de setembro.
Na pesquisa PoderData/Aya, realizada entre 13 e 16 de setembro com 3.000 entrevistados, Flávio aparece com 46% e Lula com 44% em uma simulação de segundo turno. A margem de erro é de 1,8 ponto percentual, portanto a diferença também está dentro da margem de erro.
Já o Datafolha, divulgado em 17 de setembro, apresentou Lula com 46% e Flávio com 44% em um eventual segundo turno. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, configurando igualmente empate técnico. O levantamento entrevistou 2.002 eleitores entre 15 e 17 de setembro.
A Futura/100% Cidades, por sua vez, apresentou Flávio com 48,1% e Lula com 43,7% em cenário de segundo turno, segundo levantamento divulgado nesta semana.
O conjunto desses números demonstra um cenário de alta competitividade, mas não permite concluir antecipadamente qual candidato vencerá a eleição.
As metodologias, datas de campo, amostras e margens de erro são diferentes. Além disso, pesquisas eleitorais representam fotografias estatísticas de determinados momentos, e não resultados eleitorais.
Essa distinção é especialmente importante na reta final.
O primeiro turno ainda é outra disputa
Também é necessário separar os cenários de segundo turno das intenções de voto no primeiro turno.
No Datafolha divulgado em 17 de setembro, Lula aparece com 39% e Flávio Bolsonaro com 36% no primeiro turno.
Na AtlasIntel, Lula aparece com 44,1% e Flávio com 41,7% no primeiro turno.
Na PoderData/Aya, Lula registra 37% e Flávio 36%.
Os resultados mostram por que a leitura de uma eleição precisa considerar simultaneamente primeiro e segundo turnos.
Uma candidatura pode apresentar determinado desempenho em uma simulação de segundo turno sem necessariamente liderar o primeiro turno.
O eleitorado ainda está sujeito a mudanças de preferência, migração de votos, crescimento de candidatos, debates, propaganda eleitoral e acontecimentos políticos durante as semanas restantes.
A força das redes sociais
Outro componente destacado pela campanha nesta semana foi o alcance digital.
A campanha divulgou que o Instagram de Flávio Bolsonaro alcançou meio bilhão de visualizações em 30 dias.
Independentemente da interpretação política desse número, as redes sociais ocupam papel cada vez mais importante na comunicação eleitoral contemporânea.
Vídeos curtos, transmissões ao vivo, discursos, cortes de eventos e mensagens direcionadas permitem que uma campanha mantenha contato permanente com o eleitor sem depender exclusivamente dos meios tradicionais.
A presença digital também permite testar narrativas e observar quais temas geram maior interação.
Para uma candidatura que aposta fortemente em mobilização de base, esse componente tem relevância estratégica.
O papel de Alfredo Gaspar
A partir desta sexta-feira (18), a campanha passou a destacar ainda mais a agenda de Alfredo Gaspar.
A proposta é percorrer os nove estados nordestinos e levar diretamente às populações locais as propostas da chapa.
A escolha de um candidato a vice-presidente oriundo do Nordeste transforma a campanha regional em uma operação com identidade própria.
Gaspar procura ocupar o espaço de interlocutor entre a candidatura presidencial e uma região que historicamente possui demandas específicas relacionadas a infraestrutura, desenvolvimento econômico, segurança hídrica, emprego, saúde, educação e programas sociais.
O desafio político está em transformar a representação simbólica em propostas concretas.
A presença de um nordestino na chapa, por si só, não resolve questões estruturais da região. O eleitor tende a avaliar também aquilo que uma candidatura pretende fazer com investimentos, desenvolvimento regional, infraestrutura, segurança e políticas sociais.
A economia como argumento eleitoral
Outro eixo do discurso de Flávio é a percepção sobre a situação econômica das famílias.
Ao falar em aumento do endividamento e perda do poder de compra, o candidato procura conectar a política econômica nacional à experiência cotidiana do eleitor.
É uma estratégia tradicional de campanhas presidenciais: transformar indicadores macroeconômicos em experiências individuais.
Inflação, crédito, juros, emprego, renda e consumo acabam sendo percebidos pelo eleitor através de situações concretas — a compra de alimentos, o pagamento de uma conta, o financiamento de um eletrodoméstico ou a capacidade de fechar o mês.
O debate econômico, portanto, tende a ganhar ainda mais espaço até outubro.
Uma eleição marcada pela polarização
O quadro eleitoral de setembro revela uma disputa marcada por forte polarização.
De um lado, Lula busca defender sua administração e preservar uma base política consolidada.
Do outro, Flávio Bolsonaro tenta construir uma alternativa eleitoral apoiada em pautas de direita, segurança pública, crítica ao governo federal e questionamentos à atuação do Judiciário.
No meio desse confronto existe um eleitorado que poderá decidir a eleição: aqueles que ainda não consolidaram sua escolha, eleitores que podem migrar entre candidaturas e segmentos menos ideologicamente identificados.
É nesse espaço que a reta final tende a se concentrar.
O Nordeste como campo de disputa
A passagem de Flávio por Ceará, Pernambuco e Bahia e a continuidade da agenda de Alfredo Gaspar nos nove estados nordestinos mostram que o Nordeste deixou de ser apenas um destino de campanha.
Passou a ser tratado pela candidatura como uma frente política estratégica.
A pergunta central será se a mobilização observada nos eventos públicos conseguirá converter-se em intenção de voto.
Essa transformação não é automática.
Multidões em atos políticos demonstram capacidade de mobilização, mas não constituem, isoladamente, uma medição estatística do eleitorado.
Da mesma maneira, números de pesquisas nacionais não revelam necessariamente o comportamento de cada estado ou município.
O Nordeste é politicamente heterogêneo. Ceará, Pernambuco, Bahia, Alagoas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Sergipe possuem estruturas políticas, lideranças e comportamentos eleitorais próprios.
A estratégia de percorrer os nove estados reconhece justamente essa diversidade.
A reta final
Restam pouco mais de duas semanas para o primeiro turno.
Nesse intervalo, a campanha de Flávio Bolsonaro terá de transformar presença territorial em consolidação eleitoral, ampliar sua comunicação para além do eleitorado já identificado com a direita e apresentar propostas capazes de dialogar com diferentes setores da sociedade.
A agenda de segurança continuará sendo um dos principais eixos.
A economia será outro.
O debate sobre o STF e as instituições permanecerá presente.
E o Nordeste deverá continuar sendo um dos principais palcos dessa disputa.
O movimento de Alfredo Gaspar pelos nove estados acrescenta uma dimensão regional à estratégia presidencial e procura mostrar que a chapa pretende disputar espaço político em uma região historicamente decisiva para eleições nacionais.
O que está em jogo
A eleição de 2026 não será decidida apenas por grandes atos, pesquisas ou redes sociais.
Será decidida pelo conjunto do comportamento eleitoral registrado nas urnas.
Até lá, os números continuarão oscilando, as campanhas continuarão buscando novos eleitores e os acontecimentos políticos poderão alterar a percepção do eleitorado.
As pesquisas desta semana mostram um quadro competitivo e, em diversas simulações de segundo turno, tecnicamente empatado.
O movimento de Flávio Bolsonaro pelo Nordeste é, portanto, uma tentativa de ocupar território político, ampliar sua mensagem e transformar uma campanha nacional em uma operação eleitoral de alcance regional.
Recife foi um dos principais símbolos dessa estratégia.
Juazeiro do Norte abriu a agenda.
Pernambuco deu dimensão pública à mobilização.
E Alfredo Gaspar recebeu a missão de continuar o movimento pelos nove estados.
A partir de agora, cada discurso, cada pesquisa, cada debate, cada agenda e cada voto passa a integrar uma contagem regressiva que terminará em 4 de outubro.
O Nordeste entrou definitivamente no centro da disputa presidencial de 2026.
E a campanha de Flávio Bolsonaro quer fazer dessa presença regional uma das peças centrais de sua estratégia para chegar ao Palácio do Planalto.






